OS NOSSOS FILMES
LAGOA HENRIQUES, CONTADO POR ELE PRÓPRIO
DURAÇÃO 55 minutos FORMATO 16:9 ANO 1994
AQUELES QUE TIVERAM O PRIVILÉGIO DE O CONHECER TESTEMUNHAM O FASCÍNIO PELA PERSONALIDADE DE UM HOMEM QUE TEVE, SEMPRE, A CAPACIDADE DE VER NO ESPECTÁCULO DA NATUREZA E NAS PEQUENAS COISAS DO QUOTIDIANO, A REVELAÇÃO DO MISTÉRIO DA VIDA.
E é na primeira pessoa, conversando serenamente connosco, que o saudoso António Augusto Lagoa Henriques, usando sempre aquela sua inesquecível distinção, graça e elegância, nos vai contando, mansamente, semblantes e memórias da sua vida. A Videoteca produziu este documentário tinha ele 70 anos. Morreu em Fevereiro passado, quando tinha já 85. Tivémos o privilégio de guardar esta memória única de Lagoa Henriques.
PRODUÇÃO Videoteca Municipal REALIZAÇÃO Victor Candeias IMAGEM e MONTAGEM Miguel Pité DIRECÇÃO DE PROJECTO António Cunha SECRETÁRIA DE PRODUÇÃO Fátima Aragonêz
In “NOTÍCIAS FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO” de 22 de Fevereiro de 2009
MORREU LAGOA HENRIQUES
Uma longa e dolorosa doença acaba de levar o Lagoa Henriques deste mundo. As voltas da vida, também alguma interferência estranha, afastaram-nos depois de muitos anos de uma estima mútua que merecia ter sobrevivido a esses ou piores contratempos. O tempo que perdemos é já irrecuperável. Resta-me a recordação do que foi uma grande amizade e também o texto que se segue, escrito no princípio dos anos 70 e publicado em A bagagem do viajante.
A OFICINA DO ESCULTOR
A oficina do escultor é alta como uma caverna que esvaziasse uma montanha. É também sonora como um poço, e os sons caem dentro dela de um modo redondo líquido, e são como água fria salpicando um sino de cristal. Não é raro que a música encha todo este espaço. Então a oficina transforma-se em sala de concerto, em catedral, em vulcão, e a música abre-se como uma flor rubra e gigantesca debaixo de cujas pétalas curvamos a cabeça. Mas isto não é o trabalho. As esculturas começadas, envolvidas como espectros em telas brancas, em sacos de plástico translúcidos que dentro condensam a respiração do barro, esperam o gesto delicado que as despe como a um corpo vivo e as mãos capazes de esmagarem, no mesmo gesto, ou maciamente descobrirem a linha exacta. E porque as mãos lançaram no espaço o movimento justo, a massa de argila recria-se pelo lado de dentro e é um rosto sombrio ou aberto, um lábio, uma luz na pupila imóvel, um olhar recto.
Há também os desenhos, as folhas de papel que dormem preciosamente deitadas protegendo o traço imponderável do carvão. E aquela folha que um gesto absurdamente calmo fixa na prancheta vertical, como se não fossem abrir-se no instante seguinte as portas do grande combate. Outro gesto talvez não se admitisse: se não quisermos dizer que vai começar uma cerimónia religiosa, diremos que é uma luta corpo-a-corpo, um acto de amor, como aquele mesmo gesto que despiu as estátuas. Agora o escultor defronta a folha branca, vertical e nua como um corpo. Estende o braço armado do fragmento negro do carvão e com um movimento breve ou longo, mas seguríssimo como um estoque, abre no papel a primeira cicatriz. Todo o desenho será um jogo de fintas, de avanços e recuos rápidos, até ao momento em que o objecto se rende, em que a distância se reduz e o escultor esquece o modelo já apreendido definitivamente e dialoga rosto-a-rosto com a imagem possuída.
A oficina está povoada de figuras. Há rostos de bronze no chão, que são o rosto da própria terra a olhar-nos. A leve camada de poeira que cobre os barro cozido é barro sobre barro, morte sobre vida, o rasto que o tempo arrasta, a trituração das horas. Animais vivos, objectos colhidos no acaso de encontros que são descobertas e invenções introduzem na oficina do escultor todos os reinos da natureza: raízes de árvores estão suspensas no ar como se do ar alimentassem as folhas perdidas, e há troncos ramosos que são crucificações ou magotes de gente apunhalada; pedras que a água, o vento e o sal trabalharam durante mil anos e um dia, até que as duas mãos vivíssimas as levantaram do chão e as aproximaram pela primeira vez ao bafo do homem; e dois pombos livres, de rémiges intactas, cortam a atmosfera como se estivessem num bosque ou ousassem o voo sobre um vale profundo onde figuras imóveis assistissem ao desfilar do invisível.
Cem mil objectos criados por outras mãos estão dispostos em degraus, em socalcos, em prateleiras. Cada um, porque foi encontrado, porque se deixou transportar para ali, porque tomou aquele lugar e não outro, porque foi posto em acordo ou em oposição com os que o rodeiam, é uma entidade viva, opaca ou transparente, sobre a qual a luz e as sombras se harmonizam como a noite e o dia, o crepúsculo da manhã e a tarde. As garrafas arredondam os seus bojos vazios ao lado de solitários esguios onde um ramo resseco e retorcido substitui a flor. E há inúmeros tinteiros, com as mil formas que um tinteiro poderia ter sem renunciar à função para que foi criado: pirâmides do Egipto, palmas vegetais, mãos abertas, caixas misteriosas que parecem de música, esferas fechadas, conchas de animais. Sobre tudo isto, os pombos voam rápidos, batendo o ar, enquanto numa gaiola duas rolas se banham na luz prateada que passa através do vidro translúcido. Esta luz vai abrir relevos numa casca de árvore que forra uma faixa de parede caiada. Nos interstícios da carapaça rugosa, líquenes secos e cogumelos mortos são, também eles, a casca inerte de uma vida ínfima interrompida.
Neste poço, nesta caverna, neste vulcão sonoro, neste gelado espaço, nesta montanha habitada por dentro – o escultor circula como o habitante único onde só ele cabe e que se move devagar como uma veia no pulso. Porque há realmente um movimento de palpitação nestas altas paredes. Entretanto, um vulto espera, barro viscoso e molhado, estátua inacabada. E ali a folha branca de papel, seca e imperiosa. Ambos serão vida na solidão subitamente povoada de vozes minerais, enquanto os pombos desenham uma espiral até à clarabóia do tecto.
José Saramago
Excerto retirado de “Notícias Fundação José Saramago”
http://blogpt.josesaramago.org/2009/02/22/morreu-lagoa-henriques/